Precatórios, direitos creditórios oriundos de ações judiciais e ativos de renda variável ficaram de fora da venda para o BRB, volume que ronda faixa de R$ 20 bi a R$ 30 bi

A aquisição do Banco Master era esperada, mas o perfil do comprador surpreendeu o mercado: um banco de controle estatal, de fora do circuito dos gigantes – o Banco de Brasília (BRB). Entrevistas concedidas por Paulo Henrique Costa, presidente do BRB, informam que ficaram de fora precatórios, direitos creditórios oriundos de ações judiciais e ativos de renda variável (de empresas que vinham apresentando problemas). De um total de R$ 70 bilhões em ativos, essa fatia representaria R$ 23 bilhões a R$ 30 bilhões de acordo com notícias veiculadas pela imprensa.
Circula no mercado que o BRB não tem tamanho para absorver o Master e há quem classifique a operação como atípica, já que o comprador não terá o controle. Apesar do receio de agentes do mercado, o movimento poderá abrir oportunidades para casas especializadas em ativos estressados. Em meio ao cenário, grandes assets com áreas de distressed, a exemplo de Asa, MA7, Jive e JGP, consultadas pela Capital Aberto, por ora não se manifestaram. A Strategi, ademais, afirmou que não acompanhou a operação – e não tem ativos similares na carteira. A Kaya Asset, gestora que atua com ativos alternativos, contudo, avalia que este deve ser um tema atraente para players do segmento.
A casa atua com legal claims e acredita na existência de oportunidades, embora pondere que o tema é de fato complexo, dadas as especulações sobre o caso. É que o Master adotou estratégia similar à de um special sits, diante de aquisições de participações em empresas, precatórios e direitos creditórios que não possuem saídas tão simples. “Quando você está numa operação dessa com ativos ilíquidos, na maioria das vezes, quando você necessita sair, o preço dessa saída é um pouco mais caro, por ser ativo ilíquido. O desconto que as outras casas vão colocar, inclusive a própria Kaya, por analisar algo desse tipo, é muito maior do que a média de um desconto natural daquele ativo. É algo que o mercado está olhando”, disse Willian Andrade, CIO da gestora Kaya Asset Management.
Para Andrade, o interesse na carteira do banco é a parte de legal claims, ou seja, de precatórios federais a municipais, além dos direitos creditórios. “É muito provável que essas caixinhas possam nos interessar, bem como a outras casas com o mesmo perfil”, disse, apontando que não vê uma oportunidade ou título específico para “ficar de olho” – e ponderando que a concorrência pode ser grande.
“O mercado, em tese, vai olhar, analisar. Não é algo que a gente tem 100% de preferência de entrar por conta de toda a conjectura do que é e, também, pela exposição que gera. Mas os bancos, as grandes casas, estavam olhando num certo momento para precificar o banco”.
A venda para o BRB surpreendeu, comentam algumas das fontes consultadas. Além do perfil do comprador, devido ao modus operandi do vendedor. Fazia tempo que o mercado financeiro esperava um movimento do Master, já que o banco cresceu rápido apoiado em captações de CDBs cobertas pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC). O custo dessas operações estava alto e espremia liquidez. “O Master captava recursos no mercado de forma bem agressiva, isto é, por meio de CDBs pagando altas taxas de juros, como, por exemplo, de 16% a 18% ao ano pré-fixados e taxas pós-fixadas de 140%, 150% do CDI. Ou seja, carrega um grande passivo em CDBs emitidos e um passivo caro. Segundo especula-se no mercado, o passivo dele estaria acima de R$ 40 bilhões captados desta forma”, aponta Rogério Mauad, professor de Finanças do Ibmec-SP.
Por outro lado, já era sabido que o banco cresceu aumentando seu patrimônio líquido incluindo ativos sem liquidez, como precatórios, especialmente os federais, direitos creditórios oriundos de ações judiciais e ativos de renda variável como participação em empresas em dificuldade, como a Oncoclínicas, comenta Rodrigo Valverde , advogado e gestor da Pro Solutti Capital, que já estudou comprar ações judiciais com o Master e realizou operação com o banco há cerca de um ano. Tudo isso fez do Master um banco de alto risco, situação que o mercado já monitorava.
Novo banco de investimentos
Com a compra, surge um banco de investimentos que integrará o conglomerado do banco brasiliense. O BRB terá 58% do capital total do Master, mas 49% das ações ordinárias. O poder de decisão estará nas mãos de Daniel Vorcaro, dono do Master.
Em recentes declarações, o CEO do BRB afirmou que a compra vai criar o nono maior banco brasileiro em carteira de crédito e o maior estadual.
“O que o mercado especula é que o Master captou um bocado de dinheiro para CDB e precisa pagar, só que pode chegar o momento que ele tenha que pagar o investidor e não tenha dinheiro em espécie para isso. Essa sempre foi a grande dúvida. Será que vai chegar o momento em que o Banco Master vai ter um problema de liquidez?”, explica Valverde. Tal situação gerou especulação, inclusive, sobre um grande impacto ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC), que teria que cobrir os CDBs no caso de o Master não honrar os pagamentos.
Isso só é problemático, segundo o gestor, do ponto de vista da falta de liquidez, mas há muitos players comprando ativos alternativos, como a própria área de special sits do BTG Pactual. “O que o Vorcaro, CEO do Master, fez foi virar mais um player de special sits. E, até então, não tenho motivos para dizer diferente, ele parece ter sido bem-sucedido”, comenta, lembrando que o BRB pode ter escolhido ficar de fora desses ativos por não ter expertise no segmento, além de ser difícil quantificá-los.
“Ele comprou algumas empresas que estavam em dificuldades, como Oncoclínicas, Metal Frio, Restoque, por um preço muito abaixo do que poderiam valer, mas é uma aposta de que se vai conseguir recuperar essa empresa. Nada garante que vai dar certo, e esse não é o core do banco, e sim emprestar dinheiro. Acho que isso não era interessante para o BRB colocar foco”, destaca também André Câmara, sócio da área societária do Benício Advogados, dizendo que o mesmo vale para os precatórios, que tem prazos longos de recebimento.
Resumindo, o Master precisa de recurso em caixa para garantir as operações, algo que o BRB possui, já que se enquadra no perfil de um banco mais tradicional. Ou seja, as operações se complementam, segundo especialistas, e, portanto, não deve sofrer resistência do Banco Central.
“Acredito que não vai ter uma resistência do Banco Central. Pelo contrário, para ele é mais conveniente, assim ficam mais confortáveis tendo o BRB à frente dessa carteira do Banco Master não o controlador atual”, aponta Câmara, do Benício Advogados.
Procurado, o BC disse apenas que “Quando protocolado o pedido pelo Banco Master S.A. relacionado à modificação do seu controle acionário, o Banco Central do Brasil vai avaliar o pedido tecnicamente quanto ao cumprimento dos requisitos aplicáveis a operações da espécie, previstos na Resolução CMN nº 4.970/21”.
Mauad, do Ibmec, lembra que o esperado é que os bancos façam um aporte de capital. “Especula-se no mercado que o Banco Master precisaria fazer um aporte de capital para que ele possa ser comprado. Normalmente, quando os bancos fazem aporte de capital, eles aumentam o seu patrimônio líquido para se adequarem aos novos níveis de Basileia. Em tese, um banco que tenha pouco patrimônio líquido em relação ao tamanho de suas carteiras de crédito poderia ser liquidado pelo BC e classificado como insolvente”, diz, citando que a aprovação ainda pode ter que passar pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE).
A negociação tramita de maneira confidencial, mas a aposta do sócio do Benício advogados é que ela inclua uma cisão do Banco Master, tirando esses ativos estressados que não interessam ao BRB e gerando um novo CNPJ apenas para esse segmento, posteriormente resultando na oferta desses ativos ao mercado, que devem gerar interesse das casas especializadas.
Fonte: https://capitalaberto.com.br/negocios/ativos-do-master-podem-estar-sob-mira-de-fundos-distressed/

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