Temor é de que o crédito privado e o private equity sejam inadequados para produtos altamente líquidos voltados para pequenos investidores
Uma enxurrada de novos fundos negociados em bolsa de valores (ETFs em inglês) está ampliando o acesso dos pequenos investidores aos mercados de crédito privado e de private equity, que têm crescimento acelerado, despertando temores de que esses produtos possam não ser adequados para o grande público do varejo e acabem se mostrando difíceis de serem comercializados durante uma crise.
Um ETF de crédito privado lançado no mês passado pela State Street vai manter até 35% de sua carteira em operações de dívida privada originadas pela Apollo Global Management. Enquanto isso, a especialista em renda fixa BondBloxx solicitou aprovação regulatória para lançar um ETF que poderá manter até 80% de sua carteira em crédito privado.
Mas no mês passado a Securities and Exchange Comission (SEC, a comissão de valores mobiliários dos EUA) levantou diversas preocupações com o produto da State Street, questionando sobre seus planos para amenizar o risco de liquidez e garantir preços adequados.
A autoridade reguladora acabou aprovando o fundo, depois que a State Street forneceu mais informações e mudou seu nome, mas muitos executivos do setor ainda não estão convencidos de que os ativos normalmente comprados por investidores dispostos a imobilizar capital por anos sejam adequados para veículos de investimento com liquidez diária que, até agora, mantinham principalmente títulos de fácil negociação.
“O grande apelo dos ativos de empresas fechadas é que os alocadores podem fingir que eles não sobem e descem”, diz Andrew Beer, sócio-gerente da DBi, que administra um ETF que investe em ativos alternativos líquidos. “Me diga como é possível manter essa ilusão quando o ETF é negociado todos os dias?”
O private equity e o crédito privado, que tendem a exigir comprometimento de longo prazo e impõem limites aos resgates, têm sido, em grande parte, privilégios de investidores ricos e institucionais, como fundos de pensão e fundos patrimoniais de universidades. Esses investidores podem imobilizar capital por longos períodos e, muitas vezes, estão dispostos a prescindir de avaliações de mercado frequentes para seus ativos.
Os emissores nesse mercado nascente esperam que os ativos de empresas fechadas se tornem tão populares no varejo quanto têm sido entre os grandes investidores institucionais na última década, impulsionados pelos fortes retornos desses ativos e pela perspectiva de superação dos mercados abertos no longo prazo.
Mas a falta de um padrão no setor sobre como manter liquidez suficiente ou garantir uma precificação precisa diariamente representa um desafio para as autoridades reguladoras.
“Ainda continuo cético quanto à liquidez deles. Eu diria que eles não o são”, afirma Bryan Armour, diretor de análises de estratégias passivas da Morningstar. “Como isso funciona com um ETF que é negociado durante o dia e tem a capacidade de criar ou resgatar cotas todos dias?”
Anna Paglia, diretora de negócios da State Street, defendeu o lançamento. “Este fundo é operado e administrado em total conformidade com a lei 40”, disse ela, referindo-se à Lei das Companhias de Investimento de 1940, que estabelece as regras para fundos mútuos e ETFs nos EUA. “Qualquer um que lance uma sombra sobre isso, ou insinue o contrário, está muito mal informado”, acrescentou.
O grande apelo dos ativos de empresas fechadas é que os alocadores podem fingir que eles não sobem e nem descem”
— Andrew Beer
O ETF BondBloxx pretende manter 20% dos ativos do fundo em “cash” (títulos de curtíssimo prazo e elevada liquidez) para suportar retiradas de investidores, e dará a si mesmo a opção de suspender temporariamente os resgates, uma ocorrência rara em ETFs. Se o fundo ainda assim precisar levantar recursos, ele poderá recorrer a uma linha de crédito para garantir que os investidores receberão seu dinheiro de volta.
Este mês, a SEC solicitou comentários públicos sobre a proposta da BondBloxx. O momento de seu lançamento é incerto. “Acreditamos que do ponto de vista dos investidores, o ETF faz sentido porque ele oferece acesso a uma parte do mercado a que eles hoje não têm acesso”, diz Tony Kelly, cofundador da BondBloxx.
A abertura dessa classe de ativos tem gerado inquietação entre observadores do setor, que questionam se esses ativos de empresas fechadas estão sendo forçados a se adaptar a uma estrutura que só pode manter até 15% de suas carteiras em ativos de pouca liquidez.
Em correspondência com a SEC, a State Street esboçou um plano para considerar suas posições de crédito privado Apollo como “menos líquidas” – uma diferença crucial em relação a “ilíquidas” e que ajudará o ETF a evitar atingir o limite de 15%.
Enquanto isso, a BondBloxx pretende lançar seu ETF sob a Lei dos Valores Mobiliários de 1933 – uma tática que evita o limite de 15% para ativos ilíquidos, mas oferece menos certeza quanto ao prazo de lançamento.
Armour, da Morningstar, diz que, segundo sua análise, se um fundo como o da State Street precisasse reduzir o crédito privado de 35% para 15% de sua carteira, isso levaria pelo menos sete dias, sem considerar quaisquer entradas e saídas. Essa análise assume que apenas a Apollo seria chamada para se desfazer das posições de crédito. A State Street disse à SEC que poderia obter propostas de outros grupos de crédito privado.
“É sempre bom desafiar as fronteiras”, diz Noel Archard, chefe global de ETFs da AllianceBernstein. “Por mais que eu adore a estrutura, será que ela é a estrutura certa para tudo?”

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